Nesta pesquisa, nossa equipe investigou os compostos voláteis presentes nas sementes da aroeira do sertão (Myracrodruon urundeuva), uma planta nativa do cerrado e amplamente reconhecida na medicina tradicional. Nosso objetivo foi entender quais moléculas compõem o óleo essencial dessas sementes, se elas podem ser extraídas de forma simples e sustentável e como interagem, em nível molecular, com proteínas envolvidas em processos inflamatórios. A partir disso, buscamos demonstrar o grande potencial dessa árvore como fonte de insumos naturais para aplicações farmacológicas e biotecnológicas.
Começamos analisando sementes coletadas em diferentes regiões e utilizamos a técnica HS SPME, considerada limpa e econômica, para extrair os compostos voláteis. Identificamos 22 moléculas, principalmente monoterpenos e sesquiterpenos, que são justamente os compostos mais associados a atividades biológicas relevantes. Entre eles, destacaram se 3 carene, caryofileno e cis geranilacetona, que apareceram de forma consistente nas amostras.
Depois, realizamos análises computacionais para prever como essas moléculas poderiam se ligar a duas enzimas chave em processos inflamatórios: COX 1 e iNOS. Testamos virtualmente cada composto em diferentes regiões das enzimas e verificamos que cerca de 65 por cento do conteúdo volátil das sementes possui afinidade moderada ou forte por esses alvos, o que sugere uma atuação anti-inflamatória significativa. Terpenos maiores e mais hidrofóbicos mostraram alta compatibilidade com COX 1, enquanto monoterpenos e compostos oxigenados exibiram boa afinidade pelas regiões ativa e cofator da iNOS. Isso significa que os compostos do óleo essencial da aroeira podem agir de forma multifrontal, modulando diferentes caminhos inflamatórios
Nossa equipe também identificou dois derivados de salicilato entre os voláteis, moléculas estruturalmente semelhantes ao princípio ativo da aspirina. Esses compostos demonstraram encaixe computacional sugerindo que poderiam inibir a COX 1 de forma parecida com o mecanismo clássico da aspirina, o que abre perspectivas interessantes para pesquisas futuras.
Combinando extração verde, análise química e modelagem molecular, mostramos que as sementes da aroeira oferecem uma fonte promissora de compostos biodegradáveis, facilmente extraídos e com forte potencial anti inflamatório. Esses resultados reforçam o valor econômico e biotecnológico dessa espécie nativa e apontam para seu uso em produtos naturais, fármacos e aplicações agropecuárias que demandam alternativas sustentáveis aos compostos sintéticos.
Figueiredo YG et al.. Molecules, 2022. https://doi.org/10.3390/molecules27051633